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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ao menos por um dia


Queria ser um astronauta
Pra fugir de toda dor
Lançando-me sem temor
No surdo espaço do nada

Um mendigo quase esquecido
Rogando não ser percebido
Embora lhe falte o pão

Um quadro antigo na sala
Do qual já não mais se fala
Lançado na solidão

Aquele relógio quebrado
Sem uso e abandonado
No fundo de um escuro porão

A luz de fora da casa
E que não fôra apagada
Num dia de forte verão

Queria ser a alegria
No luto de minha família
Contando os que já se foram
Meu pai, meu irmão, minha tia
Espero revê-los ainda
Ao menos por um triste dia

(Marcelo Henrique)

Se minha vida parasse



Se minha vida parasse
Rogaria ao céu que assim continuasse
O sofrimento de outrora não cessaria
Mas a dor no peito não aumentaria
Se minha vida parasse

Quanta dor, quanta agonia
Passo horas a maldizer o dia
Fiz da noite meu refúgio
Mas feliz o dia me faria
Se minha vida parasse

Embora não haja saída
A morte não desejo ainda
Meus sonhos não se tornariam realidade
Mas minha utopia se concretizaria
Se minha vida parasse

Se minha vida parasse
Os anos eu não contaria
A chuva não me molharia
No espelho, não mais eu me veria
Meu pranto também não se ouviria
Mas a dor de outrora acabaria
Pois feliz assim eu morreria
Se minha vida parasse

(Marcelo Henrique)

Tráfico de órgãos


Não sei onde estou, tampouco quem sou!
A intensa dor que sinto
furta-me os próprios pensamentos
Encontro conforto na forte luz que aflige minha visão
e no som misterioso que ouço bem ao longe
Sem saber se tudo é real ou mero delírio,
entrego-me ao pranto e tento proteger-me do frio;
suspeitando que até me faça bem

Concentro-me unicamente nesta dor enorme,

sem saber se membros ainda me restam
Não sinto nenhum deles!
Só tenho uma certeza:
algo importante falta em meu corpo
e foi retirado sem anestesia

Ouço, em algum lugar, pessoas conversado

Vozes estranhas em um idioma que desconheço
De tempos em tempos sinto a presença de alguém junto a mim
Mas sem rosto, parece um espírito

Por que não fui morto?

Por que submeter um ser a algo tão cruel e degradante?
Talvez tenha sido deixado aqui para padecer
mas tive um breve lampejo de sobrevida!

Aos poucos recobro a consciência

Mas a dor.....
somos não mais que a dor e eu!

(Marcelo Henrique)