Na
ocasião de sua partida, Raimundo fora conduzido, em sonho, à presença do
Criador. Sabia bem do que se tratava, pois não podia ver a si, tampouco sentir
ou tocar seus próprios membros. Lembrava ainda que, minutos atrás, fora levado ao
hospital por conta de fortes dores no peito; das quais, agora, só tinha
lembranças.
Podendo
ver tudo ao seu redor, percebia uma enorme claridade em todas as direções,
porém não havia limite do espaço em que supunha estar.
Olhando
em volta, percebeu que, ao longe, alguém se aproximava. Sentia-se inseguro por
estar sozinho, pois a pouco, tinha a presença de seus filhos que, mesmo
chorando, seguravam com força suas mãos e diziam-lhe que tudo acabaria bem,
como ele próprio os havia ensinado.
No
momento em que não mais estava só, pôde ver de perto àquele que, segundos atrás,
dirigia-se ao seu encontro. Ficou confuso quando percebeu que tal ser parecia-se
muito consigo: tinha o mesmo rosto, a mesma altura e usava a mesma roupa que
recordava estar quando passou mal.
- Sabes
quem sou? - Perguntou tal ser, com a voz que Raimundo julgava pertencer somente
a si.
-
Não sei! - Respondeu Raimundo, assustado por estar falando consigo mesmo.
-
Sou o Criador! – Disse ele a Raimundo.
-
E por que te pareces comigo? - Retrucou Raimundo sem entender.
-
Porque te fiz à minha imagem e semelhança! A todos assim criei. - Explicou-lhe.
- E por que estou aqui? - Indagou Raimundo.
- Porque
todos retornam a mim!
-
Mas por que meus filhos não estão mais comigo?
-
Porque só quem partiu pode voltar! – Respondeu-lhe pacientemente.
-
E pra onde irei daqui? – Perguntou Raimundo com enorme preocupação.
-
Venha e verás! Responderei a todos os teus questionamentos e te mostrarei a
origem de tudo no seu devido tempo.
Mostrou-lhe
então a origem de todas as coisas e como tudo foi criado: os universos, as
galáxias, os planetas, a terra e toda forma de vida que nela habita. Nada
passou despercebido, e tudo foi-lhe explicado de maneira simples, para que
pudesse entender. Explicou-lhe também o motivo de haver tanto sofrimento no
mundo, por que as pessoas morrem e para onde vão depois de sua partida. Ao que
Raimundo ficou muito maravilhado e grato por tamanha bondade de um ser tão
poderoso e de inteligência muito superior.
Raimundo
passou então a, gradativamente, mergulhar em profundo sono. E enquanto via a si
mesmo desaparecer de diante de seus olhos, desejava apenas poder contar a seus
filhos toda maravilha que houvera testemunhado naquele curto período de tempo,
para que pudessem viver o resto de suas vidas mais e melhor, praticando o bem e
com a certeza da existência de um bom criador. Momento então em que, no “mundo
real”, o óbito de Raimundo fora oficialmente declarado.
(Marcelo Henrique)