Por não querer ser velado
Gastei minha vida
Sonhando em um dia
Não ser enterrado
Por não querer ser velado
Morrer não queria
Assim de repente
Num dia nublado
Por não querer ser velado
Fugir eu iria
Se muito doente
Ou desenganado
Por não querer ser velado
Inveja eu teria
Do triste indigente
Que dorme calado
Por não querer ser velado
Quero ficar velho
Não ser esquecido
Mas abandonado
Por não querer ser velado
Feliz eu seria
Se o mar me tragasse
Pro mundo gelado
Por não querer ser velado
Queria um bilhete
Daquele avião
Não localizado
Por não querer ser velado
Seria o demente
Voando em foguete
Aqui fabricado
(Marcelo Henrique)
Desejo ser visto
Mas não ser notado
Caminhar pelo mundo
E não ser julgado
Não ser esquecido
Também não lembrado
Gritar muito alto
Ser ignorado
Errar o caminho
Voltar sem cuidado
No olhar dum amigo
Não ter um contato
Dar voz de prisão
Ser desacatado
Furtar um bombom
Depois ser cobrado
Desejar um bom dia
Ser mal educado
Andar vacilando
Mas não ser roubado
Ter filhos pequenos
Dormir sossegado
Viver muitos dias
Morrer enterrado
(Marcelo Henrique)
Quando você se for
Serei a flor transparente
Sem cheiro nem cor
Que dura pra sempre
Quando você se for
Serei a mãe que espera
Um filho da guerra
Que não se ganhou
Quando você se for
Serei o dia mais belo
De um longo verão
Aos olhos do cego
Quando você se for
Serei o beijo carinhoso
Na testa do esposo
Que cedo se foi
Quando você se for
Serei a luva de seda
Na mão da princesa
Que o posto deixou
Quando você se for
Serei eu mesmo
Sem sonho nem dor
Como no princípio
(Marcelo Henrique)