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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Por não querer ser velado


Por não querer ser velado
Gastei minha vida
Sonhando em um dia
Não ser enterrado

Por não querer ser velado
Morrer não queria
Assim de repente
Num dia nublado

Por não querer ser velado
Fugir eu iria
Se muito doente
Ou desenganado

Por não querer ser velado
Inveja eu teria
Do triste indigente
Que dorme calado

Por não querer ser velado
Quero ficar velho
Não ser esquecido
Mas abandonado

Por não querer ser velado
Feliz eu seria
Se o mar me tragasse
Pro mundo gelado

Por não querer ser velado
Queria um bilhete
Daquele avião
Não localizado

Por não querer ser velado
Seria o demente
Voando em foguete
Aqui fabricado

(Marcelo Henrique)


Meu desejo


Desejo ser visto
Mas não ser notado

Caminhar pelo mundo
E não ser julgado

Não ser esquecido
Também não lembrado

Gritar muito alto
Ser ignorado

Errar o caminho
Voltar sem cuidado

No olhar dum amigo
Não ter um contato

Dar voz de prisão
Ser desacatado

Furtar um bombom
Depois ser cobrado

Desejar um bom dia
Ser mal educado

Andar vacilando
Mas não ser roubado

Ter filhos pequenos
Dormir sossegado

Viver muitos dias
Morrer enterrado

(Marcelo Henrique)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Quando você se for


Quando você se for
Serei a flor transparente
Sem cheiro nem cor
Que dura pra sempre

Quando você se for
Serei a mãe que espera
Um filho da guerra
Que não se ganhou

Quando você se for
Serei o dia mais belo
De um longo verão
Aos olhos do cego

Quando você se for
Serei o beijo carinhoso
Na testa do esposo
Que cedo se foi

Quando você se for
Serei a luva de seda
Na mão da princesa
Que o posto deixou

Quando você se for
Serei eu mesmo 
Sem sonho nem dor
Como no princípio

(Marcelo Henrique)